quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Antes que o poema nos trague

vejo a rosa, toda prosa
em verso e canção
somente ela se rima em mim
e fala de cada coisa:
carne, perna, xadrez
apócope, cinema, coração
pesquisa, conhaque, alemão
imposto de renda
linguista, jasmim, catalão.


a rosa toda prosa e verso
rima em meu rosto olhares
palavras, afetos, venenos
dodecassílabos, monólitos, romanos
grécias e naus em pleno mar.


somente a rosa enfeitiça
sereia, ciclopes, palomas, gibraltar
tufões, clonagem humana
contagem de sílabas, hiatos
metrificação incompleta, síncopes.


a rosa não me sai do pensamento
ela inunda cada linha - a língua
cada barco - lexia - vira poesia
no mar de sua ciência.

como virão as horas amanhã?

quando nos teus cabelos perder meus dedos
e o perfume deles me embriagarem
e quando tua boca disser entre sussurros
o meu nome cercado de juras
quando nos teus olhos brilhantes a minha imagem
percorrer toda a retina até a macula luthea
quando, novamente, nestes cabelos negros
como o escuro da noite em meio ao mar sereno
estiver afundado e adormecido, saberás:
o guerreiro repousa ao teu lado
da mais fatigante e terna batalha
que mil vezes terás
que mil vezes vencerás
que mil vezes perderás
e de todas elas terás as lembranças
mais doces, cálidas
ou tórridas e viciosas
e pelas janelas irás procurar o dia
ou a penumbra e apenas verás as horas
que passaram voando com seus ponteiros
em forma de asas.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

gato persa

Sérgio Bezerra

assim fico a observar o mundo
tal qual um gato persa:
imóvel e branco
na janela de um velho sobrado
altivo, completamente senhor de mim
e escravo dos teus passos
com meus grandes olhos
esnobando a vida e as horas
que passam através dos
esparsos pelos do meu bigode.

terça-feira, 30 de junho de 2009

No buzu II - ou - curtas intervocálicas

Sérgio Bezerra

Para todo acento: vogal
Para todo sinal: sentido
Para todo poema bandido
Há um cotovelo dolorido.

Para sol que nasce: nascente
Para todo elo: corrente
Para todo olho: transplante
Para todo verso: repente.

Para a palavra proferida
uma síncope escondida
uma variante subtraída
pela fonética rendida.

para todo osso: cachorro
para toda cabeça: gorro
quase tudo que reluz é ouro
se calar minha voz, morro!

terça-feira, 21 de abril de 2009

A ronda da Loba


Dezessete horas e quarenta minutos.
Hoje cheguei um tanto atrasado ao covil e a loba já estava lá, sorrateira. Não, hoje nada de saia verde. É bege. Ou cru, como querem os Verbos. Achei-a um pouco mais 'cheia'. Hoje meu olhar é menos poético. É mais realista no sentido não-literário da palavra.
Notei que há alguns 'defeitinhos' - próprios das mulheres reais - e vi-os de pronto. Gentil e serena como nos encontros anteriores; resolveu atender ao incômodo telefone móvel - deveras constrangida. A loba olhava-nos com um ar superior. Acuava-nos como se ela fosse muitas, em matilha e, nós, a maioria, fôssemos apenas um. Um único cordeiro assustado.
A mortífera loba caminhava ao entardecer por entre nossas mentes e olhos. Deixava-me, particularmente, paralisado. Enfim lembrei que é doutora. Sim, de papel passado e reconhecimento público lavrado em ata acadêmica.
O Verbo, transitivo, olhava-me e ria do meu temor e admiração. Eu, um bezerro, já quase novilho. Vítima potencial daquela loba.
Assim dizem os Verbos, oráculos das letras.

(2007)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tudo termina em ando


Comecei a vida chorando

Apanhando

acalmando

depois sorrindo e mamando, manhando.

Minha infância, foi caindo e tropeçando

escorregando

vidraças quebrando, ladeiras rolando.

Adolescente, vivi estudando

na cara a acne brotando.

Vivo a vida me cansando

namorando
trabalhando
noivando
estressando
e, quem sabe, um dia casando.

Um dia, virá o samba final:

A família me enterrando
As carpideiras chorando
As baratas me rondando
e eu, no além
cagando e andando!!!!!

quinta-feira, 27 de março de 2008

de volta

Venho marcar a ferro
ou a fogo - nem sei
mais do que sou feito
se cuspido ou talhado

vendido a granel
em tonéis de madeira
em taças de estanho
vinho, sal ou mel

arrasto correntes de aço
com os pêlos eriçados
no braço, no rosto
abro um céu de chuva

depois um sorriso
desfaz todo o susto
que levo no limbo
da tua cara séria.

sábado, 5 de janeiro de 2008

escrito com lágrimas


chove aqui dentro e lá fora um sol escaldante

aqui dentro do peito, a enxurrada

das lágrimas que não rolam na face

lágrimas de pedra derrubam um nevagante


as ondas revoltas misturam

mar em fúria com ex-céus azuis

águas turquesa, da cor dos sonhos

ondas espumosas de dor e luz


não há métrica possível

ante a dor verdadeira

se de métrica já desditava

triste é que a desprezo inteira!


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

estrela-do-mar

o mar atrai meus olhos.
teus olhos, um céu de estrelas.
viro o barco e afogo-me em tua procura.


sábado, 3 de novembro de 2007

as duas, de vez!




ocorre-me deliciosa idéia
mas nem posso contar
pitanga e pimenta, as duas
na boca, de vez, gostosas, provar!

pimenta, és ardida, malgrado veludo
agridoce pitanga faz língua travar
fazendo na boca, juntas
a lingua doce, ardendo estalar

pitanga tão rubra, macia, contudo
pimenta verdinha, trincando a ficar
meus olhos de água untas
as faces de cor vão mudar

doida, maluca, louca essa idéia
treslouco, doidinho agora a ficar
pitanga e pimenta, juntas as duas
com a boca, de vez, eu hei de provar!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

a beleza e o dom









cada pessoa exprime a beleza do jeito que sabe
uns pelas mãos, outros, pela voz ou pelo jeito
quem não sabe como fazer, assim já está feito
pois de um sorriso que dá, em todo canto cabe!






charada





pitanga, pimenta... gostosa, arisca.
- quem será a mais bela?
não sei, não me complica:
- serás tu ou será ela??



domingo, 21 de outubro de 2007


agradeço com uns versos soltos
agradeço com uns versos tortos
eu, um anjo caído, ensimesmado
agradeço a visão do paraíso.

(volte sempre)



o pica-flor na flor da pitanga


(seguindo as pegadas do Boca do Inferno)


uma pitanga visitou o beija-flor
que estava quieto no ninho
[que estranho: esse tipo arisco nunca fica quietinho!]
e o intrépido colibri a notou
notou tanto e tão bonita ele a achou
que deixou um beijo singelo no ar
e quis o néctar da sua flor.

mas o peralta incontente se reclamou:
- Pitanga tu és azeda e vens me mostrar
o doce que tens aí escondido e não mo quer dar!
- Eu dou se o quiser, mas a você, bico-doce,
não, não e não! Nem adianta tentar!

[Ralhou a linda fruta sem papas na língua.]
Ainda ofegante de tanto rondar
a fruta agridoce, ele tristemente suspirou.
e, veloz e mudo como sempre, indo embora, se pôs a voar.



como viajar de lambreta

pegue 2 dz de lambretas
lave-as muito bem, passe até uma escova para ficarem bem branquinhas.
corte tomates, cebola, pimentão vermelho e verde, coentro ou salsa e junte às lambretas. separe um pouco deste tempero.
leve a mistura ao fogo cobrindo com água. ponha sal a gosto.
depois de abertas, deixe o tempero cozinhar uns 5 minutos.
faça um molho de pimenta bem forte e adicione o tempero reservado a ele e um filete de azeite extra virgem.

beba o caldo em copo americano
(daqueles de boteco, listrado)
com cuidado para não queimar a língua!

pingue limão e o molho dentro de cada lambreta.
coma com as mãos
na panela mesmo.


aproveite a paisagem

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

cabaré das ilusões



sei lá o que te dizer agora...
que amanhã irei à praia
e que não quero a tua companhia?
devo dizer que não te quero mais?
que teu amor não vale a pena tanto risco?
que dizer de nós dois
nessa escuridão, nesse limbo, onde fantasmas
nos assustam como numa casa maldita e abandonada.
nos perdemos a cada dia. já estamos perdidos
de nós mesmos.
corremos muito perigo à noite
e, sob essa luz vermelha e mortiça
essa luz que tantas cenas tórridas alumiou
tu me diz q sentes saudades
eu te digo que já não sinto mais tanto prazer
e que teu cheiro não é mais o mesmo.
e que as rosas agora devem estar murchas
lá na tulipa de vidro barato que eu te dei de presente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

ambulatório médico









hoje eu fui ao hospital

não, desta vez não fui acompanhar alguém
fui por mim mesmo
naquele corredor branco
o médico ridiculamente vestido de branco
e serenos olhos azuis

e óculos caindo no nariz
e ele pegou na minha doença
e eu notei que não sou de vidro
e ele foi humano

e ele me mandou tomar cuidado com as mulheres
pois elas querem me esquartejar
para que eu não dance mais


com outra.



à vista


bebo a cerveja
e olho as tábuas do assoalho
deste velho casarão
em plena Cayru
que ninguém mais quer
que ninguém conhece
ou sabe o nome da Fonte
nem que ela e Cravo tem algo em comum
o Jorge, o cacau, as velas de saveiro
fatigadas
sangrentas navalhadas na rampa
na ponteira
meia-lua de compasso
no calço
no fumo de corda
nos cabos de tração
de amarração em terra firme
ou em ferros frios
nos telhados da montanha
que me servem de orgia
em antigos gozos e cartas
um royal flush
um blefe
um tiro
um sorriso de puta
uma cachaça bem curtida
um adeus
um barco
um dia
sem noite
se me avizinha.



o problema não é a mão
mas de quem é o pulso
o fator Rh, a assinatura, cpf e rg
é de quem sai a grana pro café
de quem sai a cerveja, o pileque, a droga
o azeite que não chega pra tanto acará
e cada acará(jé) não chega pra tanta gente
com fome
com sede e desejo de gente
que fala mal de mim
de ti
dos anjos e dos demônios
não chega pra cada gringo
pra cada argola de ouro
pra cada pernada, meia-lua, arrependido
macaco pulando aú
esbraveja e espuma a boca
cheia de sangue
a gola vermelha
degola de peixe
cabeço de amarração
bata o pandeiro, meu filho
que a noite já chega.
natimorta